quarta-feira, 3 de março de 2010

Terroristas musicais prontos para atacar galáxias sonoras


O sucesso do RedHead Outdoors mostra como a internet pode ser uma parceira eficiente na promoção de bandas independentes.


Depois de um ano de muito trabalho, propaganda e inspiração, a dupla de música eletrônica RedHead Outdoors acaba de estrear seu primeiro álbum, que leva o nome da banda. O lançamento do CD rolou no Joe’s Pub Rock no dia 18 de fevereiro, em Tramandaí, onde Jai (vocal, guitarra e sintetizador) e Juli (baixo sintetizado e vocal) — ao lado do inseparável Dave (o laptop que assume bateria e percussão) — iniciaram a carreira musical. Produzido de maneira independente, o disco RedHead Outdoors conta com 13 faixas cantadas em inglês que misturam baterias eletrônicas, guitarras distorcidas, vocais robóticos e sons de fliperama.

Originais e dançantes, as canções falam sobre nerds que invadem sistemas (24 per 7), mulheres assassinas (Car Queen Killers), esquizofrênicos que enxergam fantasmas roxos (Purple Ghost) e zumbis tecnológicos (We Are Zombies). “Todas elas refletem meus sentimentos e devaneios. Purple Ghost, por exemplo, foi criada quando eu estava tendo uma crise extrema de pânico”, revela João Antônio Teixeira Junior (Jai), que assina todas as composições. “Tanto é que a música causa uma sensação de paranoia. Ela é gritada, as notas são desordenadas e o sintetizador é mais sombrio.”

Fruto de uma brincadeira entre quatro amigos, o RedHead Outdoors começou no final de 2008 com o nome de Colored Cell. Depois de enfrentar a saída de dois componentes, o grupo se consolidou como um duo. Em pouco tempo, Jai e Juli divulgariam o primeiro single, I Don’t Know Why, que hoje soma mais de 42 mil execuções no MySpace da banda. Tamanho foi o sucesso que o hit chamou a atenção da dupla de powerpop sueca Smålldisco, que elaborou um remix da canção para o disco de estreia.

Foi graças à internet, aliás, que os gaúchos do RedHead Outdoors tiveram a chance de cruzar fronteiras e conquistar públicos de outros estados e países. Por meio do MySpace e de outras redes sociais, o som deles passou por São Paulo e Curitiba, deu as caras pela Suécia e pela Nova Zelândia e chegou até o México, onde curiosamente se concentra boa parte dos fãs. “Passamos a maior parte do nosso tempo grudados no computador, tentando espalhar ao máximo a nossa música”, conta Juliana Koetz (Juli).

Antes de ser uma concorrente capaz de aniquilar as vendas do disco, a web é uma aliada na divulgação do trabalho do casal. “Não acredito que a disponibilidade gratuita das nossas músicas possa prejudicar o CD. Aqueles que realmente quiserem nos prestigiar — e também conhecer o nosso repertório na íntegra — vão comprar o álbum, que oferece melhor qualidade de áudio, o que é inviável na internet”, diz o vocalista.

O RedHead Outdoors já se apresentou em algumas praias do litoral, como Imbé e Atlântida, mas espera receber convites para tocar em outros locais. Para agradar os puristas, o grupo não esquece a “pegada mais real” ao executar o set list. “Tocamos praticamente tudo ao vivo, sem playback. O tom mais roqueiro fica por conta da guitarra, que tem uma presença inegável nos shows”, explica Jai.

Enquanto a crítica especializada tenta chegar a um consenso sobre a classificação musical do RedHead Outdoors, o duo define seu estilo como “electro trash indie” — aquele tipo de som eletrônico que agrega efeitos sonoros característicos dos videogames antigos. Exemplos claros (e talvez mais conhecidos) do gênero estão em canções como Crimewave e Alice Practice, da dupla canadense Crystal Castles. Além da influência dos jogos, a banda tramandaiense confessa ter buscado inspiração em gente como Tommy Sparks, We Have Band, Simian Mobile Disco e Flamingo Crash.

As referências gringas, porém, não saltam apenas ao ouvido; elas são visíveis nas roupas de Jai e Juli. O visual new wave da dupla — que não dispensa óculos Wayfarer neon e sneakers megacoloridos — lembra os looks vibrantes e descolados dos integrantes do trio californiano Hyper Crush. “Nós também incorporamos alguns elementos do universo cyberpunk. Usamos cabelo moicano e temos em Billy Idol nosso modelo de irreverência”, declaram.

Daqui para frente, a meta da banda é lançar um videoclipe e mergulhar no próximo projeto musical para 2010. “Mas o que realmente queremos para o futuro são as pessoas dançando ao ritmo da nossa música”, sonha a dupla. Tradução do espírito do tempo, o som energético do RedHead Outdoors atende aos anseios da geração contemporânea e prova que nem só de reggae vive o litoral.


FIQUE LIGADO

Gravado e mixado no UFO Audio Studio, em Capão da Canoa, o CD custa 15 reais e está disponível para compra através do e-mail redheadoutdoorsstuff@gmail.com ou pelo site do MercadoLivre.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Os prazeres secretos da dança


Quem nunca assistiu ao filme Dança Comigo? (Shall we dance?, Estados Unidos, 2004) dificilmente imagina a sensação de liberdade e de bem estar que a dança pode proporcionar. Quem já colocou seus pés num tablado ou numa pista, porém, sem dúvida já experimentou o efeito inebriante causado por essa arte tão milenar quanto o ato sexual. Não é por acaso que ela figura, ao lado do teatro e da música, como uma das três principais artes cênicas da Antiguidade.

Dança evoca paixão. O ritmo musical desperta a sensualidade. Não é de surpreender que as escolas especializadas no assunto estejam cada vez mais lotadas. Nos tempos colegiais, lembro que fui chamado para substituir um dançarino que resolvera desistir do grupo de dança de salão. Apreensivo no início, logo fui me apaixonando pelas aulas.

Letícia Salin, grande amiga e colega, tornou-se minha companheira indefectível. Em seguida veio Aline Rossa, sempre mexendo as cadeiras com elegância inconfundível. Sambamos ao ritmo de Bebete Vambora, do Jorge Ben, arrancamos suspiros com Time of My Life (trilha clássica do também clássico Ritmo Quente) e requebramos os quadris com Shakira, em Hips Don’t Lie. Velhos tempos.

Mas dança não é só diversão. Requer disciplina e muita — mas muita — paciência para ensaiar, memorizar os passos, errar, acertar e errar novamente. Tudo em busca da perfeição do movimento, da delicadeza do gesto, da alegria do olhar. E do sorriso. Porque mesmo que não se siga rigorosamente a sequência de movimentos, só um sorriso no rosto dos dançarinos já é capaz de arrebatar o público.

Os benefícios que tal atividade proporciona são, de fato, incontáveis. Vão da matéria ao espírito, do físico ao anímico. Disso todo mundo tem conhecimento. O que poucos sabem é que é possível, através da dança, encontrar a insustentável leveza do ser.

Ainda não sei por que parei de praticar. Talvez me falte uma companheira. Nada impede, é claro, que o indivíduo se acabe, sozinho, na pista daquela boate. Mas será que existe coisa melhor do que compartilhar esse momento mágico com alguém? Dança se faz em conjunto. É união.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Uma discussão sem fim


É inegável que a violência no trânsito constitui um grave problema para a sociedade brasileira. Calcula-se que, anualmente, morrem cerca de 30 mil pessoas nas estradas do país — o equivalente à população total do município de Portão, localizado na Região Metropolitana de Porto Alegre. Isto significa que, a cada hora, há pelo menos 3 vítimas fatais no trânsito, sem contar as ocorrências extraoficiais que certamente incrementam esse dado assustador.

Pode parecer apenas estatística ou não representar muito para o leitor, mas tal problema figura como a principal causa de mortalidade entre homens na faixa etária de 15 a 44 anos. Tais indivíduos constituem uma parcela economicamente ativa da população. Sem eles, o setor produtivo nacional perde sua mão de obra e a economia do país sai prejudicada.

Para se ter uma dimensão da questão, um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), feito em 2007, mostrou que só os acidentes nas rodovias custam à economia brasileira 22 bilhões de reais por ano, gastos em hospitalizações, indenizações e danos materiais.

Embora não exista consenso entre os especialistas a respeito das causas dos acidentes, eles são unânimes ao apontar que o consumo de álcool, a velocidade excessiva e a imperícia dos novos condutores são os fatores que pesam no momento em que dois veículos se chocam. Como pano de fundo, está a certeza da impunidade.

É fácil perceber o quanto essa questão tem passado ao largo das políticas públicas e da preocupação da sociedade civil. A insolência dos motoristas e a leniência das autoridades, que não raro fazem vista grossa à imprudência nas estradas, contribuem ainda mais para o agravamento desse quadro.

Sem dúvida muita coisa já tem sido feita — iniciativas como o projeto Vida Urgente ou a nova campanha porto-alegrense de educação para o trânsito são prova disso. No entanto, a alta letalidade do trânsito brasileiro justifica uma ação mais incisiva do Estado no tocante à aplicação efetiva da legislação.

Não há como indicar receitas, mas é possível apontar dois caminhos. Em primeiro lugar, é necessário aumentar a fiscalização contra o consumo de bebidas alcoólicas em bares e restaurantes. Em segundo plano, é fundamental recolocar o tema em foco por meio de debates nos diversos espaços sociais, a fim de sensibilizar o público.

Para que essa triste realidade seja revertida, urge tratar o fenômeno da violência no trânsito em sua complexidade, pois enquanto ele não for transformado em objeto de atenção de toda a sociedade — do cidadão comum às autoridades — não avançaremos no propósito de preveni-lo.

sábado, 10 de outubro de 2009

Fumantes, a escória da sociedade


Cresci numa família de fumantes — pai, mãe e avós sempre alimentaram o hábito, glamoroso nos tempos em que eram jovens e Audrey Hepburn segurava sua clássica cigarrilha no filme Bonequinha de Luxo. Meu pai já chegou a consumir 4 maços de cigarro. Por dia. Poderia ter seguido o mesmo caminho, não tivesse eu nascido sob a égide da “geração saúde”, que nega o tabaco e o álcool em busca do bem-estar e da mente sã.

Ainda bem. Pesquisas científicas comprovam que o tabagismo é a principal causa de morte “evitável” (alguma não o é?) no mundo. Estimativas apontam que o problema atinge 16% dos brasileiros — dos quais meus familiares fazem parte. Mas o pior nem é isso.

Mais grave do que dar uma tragada é tratar o fumante como se fosse leproso, portador de uma doença ultracontagiosa. Algo como “o pus que infecta o muco que se acumula nos fungos que se alimentam do lodo no fundo do lago”, diria Michael O’Neal, personagem de Dermot Mulroney em O Casamento do Meu Melhor Amigo. Não é de surpreender que a Assembleia Legislativa gaúcha tenha aprovado, na última terça-feira (6), um projeto de lei que proíbe o uso de cigarros, charutos e derivados em ambientes fechados em todo o Estado.

No Rio, estabeleceram multas antifumo que chegam a R$ 30 mil. No Paraná, até o fumódromo — único reduto de congregação dos tabagistas e, quiçá, sua última esperança — será extinto. Quanto absurdo.

Durante a minha infância, lembro de ter sido ativista na luta inglória contra o fumo, estimulada pelas discussões que fazíamos na escola. Elaborávamos cartazes e os distribuíamos pela escola, divulgando os males causados pelo cigarro. À medida que fui crescendo e entendendo o significado do livre arbítrio, deixei de exercer o papel de Dom Quixote lutando contra gigantes imaginários. Afinal, quem fuma é ciente do mal que causa ao seu corpo e, se insiste em fazê-lo, é porque sente prazer. Recusar-lhe esse direito mínimo é como impedir um casal gay de se beijar.

Confesso que a fumaça me incomoda. Mas não é ela que vai assinar, mais cedo, meu atestado de óbito. Acreditar que o cerco contra o cigarro, da forma como vem sendo conduzido, pode alterar a rotina dos usuários ou — o que é mais difícil — reverter o costume de fumar é pura tolice. Não é um simples anúncio, uma campanha estridente ou uma lei politicamente correta que farão com que os usuários larguem o vício. Implicância tem limite.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Ferramentas para domar a crise


Nas últimas décadas, as assessorias de imprensa diversificaram o leque de produtos e serviços prestados aos seus assessorados. Ampliaram seu espectro de atuação e conquistaram novos clientes no setor privado. Com a recente crise financeira internacional ― que eclodiu em outubro de 2008 ―, essa tendência se intensificou. As agências de comunicação corporativa se viram obrigadas a encontrar formas de se manter no mercado e se tornar cada vez mais competitivas.

Esse é o caso da Texto Assessoria de Comunicações, de São Paulo, que tem entre seus clientes nomes como grupo Marfrig, Meria e C&C Casa & Construção. Criada em meio à turbulência do Plano Collor, em 1990, a empresa aprendeu a superar momentos de crise. “Estamos nesse negócio há quase 20 anos e já presenciamos outras crises. O momento atual exige mais e melhores serviços de comunicação corporativa para diferenciar as empresas, marcas e produtos”, avalia Altair Albuquerque, diretor executivo da Texto.

Especializada no agronegócio ― um dos setores mais afetados pela crise ―, a empresa não se deixa abater pelo futurismo econômico e planeja grandes metas para 2009. Pretende aumentar o quadro de funcionários e planeja mudar-se para um conjunto comercial maior em uma área nobre de São Paulo. “Até o momento, não enfrentamos quaisquer problemas”, assegura Albuquerque. “Estamos aqui para trabalhar e resistir”, sublinha.

Outro exemplo de superação e resistência está com a FSB Comunicações, em operação há 27 anos em escritórios espalhados por todo o Brasil. Na busca de criatividade para encontrar soluções, a agência ― que assessora organizações como Gol, Oi, Schincariol e Embratur ―, passou a oferecer novos produtos aos clientes. Entre eles, mapeamento de riscos e pesquisas de “clima” com públicos variados, ferramentas para domar a crise e transformá-la em oportunidade. “A comunicação é importante tanto em momentos bons quantos ruins, devido à necessidade de transparência e de informar a situação a todos os stakeholders [investidores, clientes, etc.]”, explica Tom Camargo, sócio-diretor da empresa.

Apesar de atribuir o preparo das agências maiores à experiência e à diversidade de clientes, Camargo é cauteloso: “Não sentimos o baque, mas dobramos a atenção para não sermos pegos de surpresa em uma situação extraordinária”.

Progresso aliado a muita cautela. Esta parece ser a fórmula em comum das empresas de comunicação corporativa de médio e grande porte para enfrentar a crise. “A melhor receita para o momento é o que já fazemos como rotina: intensificar a prestação de serviços e apresentar resultados ainda melhores para os clientes”, acredita Albuquerque.

sábado, 26 de setembro de 2009

Falavras incompreendidas


Cassiano encontrou a porta do café; entrou de chofre, permitindo ao vento invadir o calor do recinto. Leônidas o esperava, impaciente. Queria muito resolver o impasse entre os dois. Assim que o viu, fez sinal e Cassiano se dirigiu até a mesa. Sabia que Leônidas sofrera e temia que ele pudesse virar-lhe as costas ao final da conversa; resolveu, porém, sentar-se de frente para ele.

― E o que tu estás sentindo hoje?
― Suspense. ― disse, os olhos vidrados. ― Um vale verde que se descortina lá adiante e eu em cima de um penhasco. Tentando, a todo custo, chegar até os montes verdejantes.
― Tua vida é um incógnita. ― sentenciou Cassiano.
― Minha vida ainda não pode ser resumida, porque não morri. ― revidou Leônidas, e desatou a chorar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O tamanho do medo


100 nanômetros — ou 100 bilionésimos de metro. Esse é o tamanho do vírus responsável pelo inesperado surto da gripe A (H1N1), a tão famosa gripe do porquinho. Um inimigo invisível e minúsculo, mas ao mesmo tempo onipresente e letal, capaz de colocar a população mundial — e os órgãos do governo — em estado de pânico. Para se ter uma ideia disso, no dia 11 de junho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou o nível máximo de alerta contra a gripe, transformando-a na primeira pandemia global do século XXI. O que antes era apenas “medida de precaução” contra o alastramento do problema, agora se tornava uma verdadeira histeria coletiva.

Academias, clubes e cinemas, outrora apinhados de gente, pareciam estar abandonados nas semanas que se seguiram. Escolas e universidades suspenderam as atividades. Algumas até adiaram o reinício das aulas. Para piorar ainda mais o clima de insegurança, as manchetes dos jornais insistiam no relato das vidas “ceifadas pelo vírus” e no drama dos que perderam seus familiares ou amigos. A cada morte confirmada, mais um banco vazio lá fora. E, naturalmente, mais uma máscara cirúrgica vendida ou um Tamiflu® receitado.

De fato, o medo de ser contaminado pelo vírus H1N1, transmissor da gripe A, promoveu uma verdadeira corrida às farmácias e aos postos de saúde. Hospitais lotados, alguns alarmes falsos, filas intermináveis por atendimento. O álcool em gel, usado como antisséptico, desapareceu das prateleiras e das distribuidoras e foi o principal produto vendido nos últimos meses. Por que tanto frenesi?

Obviamente, alguém sempre lucra com isso tudo. Indústrias farmacêuticas, fabricantes de produtos de limpeza, hospitais e até mesmo a imprensa — sem dúvida, uma aliada na prevenção da doença, mas também responsável pelo alarmismo que, perniciosamente, gera desinformação. O interesse comercial, em tempos de crise, é evidente. Crises movimentam a economia.

Outros comemoram. Yeda, Sarney e seus apaniguados que o digam. Com a nova gripe, muitos assuntos acabam desprezados — ou silenciados — pela mídia. A ampla abordagem do tema contagiou as redações. Só pode ser o espírito do porco. Are baba!

Mas esse maldito vírus também infectou, na sua versão eletrônica, o Dr. Google. Basta digitar “gripe suína” ou “gripe A”. Somando-se os resultados das duas pesquisas, encontramos mais de 42.600.000 referências ao termo no site de busca. Impressionante, não? Essa neurose é mesmo assustadora.

Primeiro foi a gripe do frango, em 2004. Agora, a bola da vez está com a gripe suína. Só muda o nome do bicho. Eu não me deixo intimidar pelo poder “altamente destrutivo” dessa nova pandemia. Pelo contrário, procuro boicotá-la. Igorance is bliss, alguém já disse. O ser humano, na maioria das vezes, só consegue lidar com aquilo que vê. Quando se trata de uma ameaça impalpável como a do vírus H1N1, o medo cria feições monstruosas.

No início, quando as pessoas não sabiam a real dimensão do problema, a comoção era compreensível. Depois de uma enxurrada de notícias a respeito do assunto, porém, é estupidez insistir nessa neura. Nem tudo está fora de controle. Talvez as pessoas desconheçam o tamanho do seu temor. A começar pelo nome da gripe.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Muito espaço para pouco conteúdo


Creio não ser um blogueiro de verdade. Nos últimos dias, me dei conta de que não tenho publicado mais nada aqui há mais de um mês. O psicólogo americano Burrhus Frederic Skinner, propositor do behaviorismo radical, costumava dizer que se você realmente pretende se tornar um bom escritor, precisa praticar a escrita diariamente. Ele acreditava que escrever é como qualquer outro skill: quanto mais o praticamos, mais habilidosos nos tornamos.

Sinceramente (e para a alegria da literatura), não pretendo me tornar um escritor. Longe disso. Sequer possuo talento — ou disposição — para tal. Gosto, isto sim, de tomar nota do que penso e sinto. Em cadernos empoeirados, em pequenos blocos de notas esquecidos na gaveta, em rascunhos e guardanapos espalhados pelo quarto. Ou aqui mesmo, no desconhecido Caçadores de Falavras. A maior parte do que até hoje já escrevi serviu de exercício terapêutico; meus textos, na realidade, estão mais para um manual de autoajuda do que para crônica ou artigo de opinião. Aliás, não sei dar opinião. Tenho medo de me expor, por escrito, a respeito de determinados assuntos. Falo, mas não escrevo.

Eis que chego ao ponto nevrálgico do meu pensamento: sinto, embora alguns digam que não, que este blog é mais um espaço para se escrever besteiras. Por isso não o divulgo. O nobelizado escritor José Saramago, não faz muito, se pronunciou a respeito dos ditos diários virtuais. Em entrevista ao jornal argentino El Clarín, afirmou que com o crescimento do número de blogs “está se escrevendo mais, embora pior”. Algum motivo para comemorar?

Sejamos francos. A gente não entende nada de coisa alguma. Ainda mais na juventude. O que fazemos é nos pavonear por aí, regurgitando saberes mastigados, repisados, interpretados. Reflexão própria? Nem pensar. Para impressionar, basta digitar [Ctrl C + Ctrl V]. Os blogs estão recheados disso. De baboseira sem sentido. De textos inúteis. De ruminações. Lixo (nem um pouco) criativo. As pessoas parecem não se preocupar com a qualidade do que escrevem. Então por que escrever?

Com toda essa história de internet, o que resta são fragmentos. E, neste sentido, a Rede é a colcha de retalhos que abarca toda sorte de absurdos: ela é muito útil, sem dúvida, mas não nos fornece conteúdo confiável e bem fundamentado, em profundidade — exatamente aquilo que, não raro, consta dos livros. Nas malhas virtuais, porém, o conhecimento raso, as experiências irreais. Nos blogs também.

As pessoas se sentem mais livres para escrever hoje em dia e, infelizmente, não é de se esperar que a maioria delas tenha boas ideias para publicar, em blogs ou não. Certamente faltam bons escritores, mas faltam também bons leitores. (Paulo Coelho, com todo o seu sucesso, que o diga.)

Então você poderia me perguntar: qual é, portanto, a finalidade desse blog, considerando-se que seu proprietário nem pretende conquistar o público leitor? (Pergunta interna.) Não seria melhor descobrir o que é? Trata-se, talvez, de um diário secreto e inconstante, embora paradoxalmente amparado no princípio do semper renovandus. Um blog “inacabado porque lhe falta a resposta. Resposta essa que espero que alguém no mundo ma dê”, já disse Clarice. Enquanto a bendita não vem, permaneço repleto de dúvidas. E continuo a escrever. Apesar do conteúdo.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Realidade com tempero de ficção


Livro mostra que o texto em revista pode — e deve — flertar com a literatura, mas sem jamais perder o caráter informativo que norteia o fazer jornalístico.

Qual a diferença entre jornalismo e literatura? A notícia de jornal está muito distante da reportagem de revista? Como é possível ganhar em técnica sem perder em estilo? São respostas a perguntas como essas que emergem de O estilo magazine: o texto em revista (Summus; 129 páginas; 31 reais), do jornalista e professor Sergio Vilas Boas. Ao descrever e esmiuçar as técnicas da escrita em revista, o autor ensina a conciliar jornalismo e literatura.

O livro prova que o estilo magazine não tem espaço só nas revistas. Nos cadernos culturais de Zero Hora, assim como nos suplementos dominicais da Folha de S.Paulo, por exemplo, é perfeitamente possível deparar com um texto mais solto e criativo, livre das amarras impostas pelo lead e pela hard news. Vilas Boas tece um paralelo entre as “gramáticas próprias” do jornal diário (informativo) e da revista semanal (interpretativa).

O autor também recupera o histórico do New Journalism, gênero expoente na imprensa americana na década de 60. É o que se pode chamar de jornalismo literário, uma vertente que enxerga — e narra — a realidade a partir de uma perspectiva mais subjetiva: a observação participante do repórter. Mas Vilas Boas faz as devidas distinções entre as linguagens de uma reportagem e de um romance: “Um texto jornalístico deve se confortar nos limites do verificável. A suprarrealidade não interessa ao jornalismo”, escreve.

Ao longo da obra, Vilas Boas analisa o perfil de revistas aclamadas pelo público, como as extintas Realidade, Manchete e O Cruzeiro — que, através de suas grandes reportagens, consagraram o gênero magazine no Brasil. O terceiro capítulo traz excertos de matérias publicadas pela Veja e pela IstoÉ, herdeiras da tradição iniciada décadas atrás. Por meio de exemplos, detalha sugestões e salienta nuances do texto impresso, mostrando ao leitor outras possibilidades de escrita, em geral pouco abordadas nos cursos universitários.

Realizada na Unisinos no último dia 4, a palestra da jornalista Eliane Brum sintetiza e complementa as ideias de Sergio Vilas Boas. A repórter especial da revista Época acredita em um jornalismo sensível e humano, atento aos diferentes ângulos de uma mesma realidade.

Eliane, assim como o autor de O estilo magazine, é crítica de um jornalismo robótico, que engendra “aplicadores de aspas em série”. Vilas Boas segue seu pensamento. Prega a elegância, a criatividade, a sedução. Pudera. Ele é co-fundador da Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL), em atividade desde dezembro de 2004.

O livro não encerra a discussão em torno do estilo magazine; pelo contrário, amplia-a. Enquanto isso, revistas como Piauí e Caros Amigos apostam nessa fórmula, há tempos esquecida pelo pragmatismo que tomou conta das redações brasileiras nas últimas décadas.

Escrito numa linguagem clara e didática, o texto de Sergio Vilas Boas dialoga com o leitor. Nem por isso a obra perde sua consistência acadêmica, sendo uma verdadeira lição para estudantes e pesqui-sadores da área de comunicação.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Homem na medida certa?


A professora de francês nos dá uma tarefa um tanto quanto delicada, ainda mais em véspera de Dia dos Namorados: redigir um pequeno ensaio sobre aquilo que buscamos em alguém. Deve ser conjunção astral, coincidência, destino ou raio que o parta: era exatamente sobre “l’homme de ma vie” que tratava a lição do livro em que estávamos. Pois bem. Cumpri minha tarefa, exatamente agora, às 5h da matina — sendo que a comecei às 22h. É mole? Poxa, pensar — e, o que é pior, escrever — a respeito do homem da minha vida não é fácil. Ainda mais se tiver de ser em francês. De qualquer forma, adorei o desafio. O resultado — Le portrait de l’homme idéal — pode ser conferido no blog Le Moulin à Paroles, mantido pela minha turma do Unilínguas.

Na mesma sintonia desse texto, está a reportagem Um homem na medida certa, publicada na 11ª edição Babélia, jornal experimental dos alunos dos cursos de Comunicação da Unisinos. Depois de um levantamento feito pelo câmpus da universidade no mês de maio, minha equipe de reportagem descobriu a preferência das universitárias em relação ao perfil masculino desejado. E não restam dúvidas: 47% delas querem o neossexual, um homem cuja principal característica é resgatar antigos valores da masculinidade sem perder a sensibilidade. O cara que não perde o instinto de macho caçador, mas que se permite comportamentos sensíveis.

Quanto a mim, não poderia afirmá-lo com tanta certeza. Afinal, nunca acreditei em fórmulas mágicas. Até pouco tempo atrás, meu boyfriend criteria não estava claro. Não sabia o que realmente buscava em um cara. Depois de tantas divagações, porém, parece que a imagem do homem ideal me está mais palpável. Infelizmente eu não o encontrei ainda. Pra dizer a verdade, nem sei se de fato ele existe — do contrário não seria chamado de “ideal”. Apesar de a realidade aí fora ser bem desanimadora, insistimos em acreditar nele. Mas que fique claro: o sujeito dos seus sonhos obviamente não descerá do Céu, materializado na figura de um arcanjo renascentista. Todos os homens têm lá os seus defeitos; é preciso saber escolher o essencial dentre todos os aspectos — positivos e negativos — que eles oferecem.

Pelo visto, ainda serão necessários anos e anos de estudos e explicações para encontrar aquilo que nós clamamos há séculos: o cara perfeito, que esteja à altura das nossas necessidades. Tarefa difícil, a considerar que sempre divergimos quanto às qualidades que deve apresentar. Ele pode até não existir tal como manda o protocolo. Mas sempre haverá um bendito rapaz que se aproxima dos nossos anseios. O ideal, mesmo, seria um homem com a força de Sansão, o espírito festeiro de Baco e a sabedoria de Sócrates — tudo isso num corpinho de Apolo! Esse, sim, seria hors concours. Do balacobaco.

* * *

A canção Je cherche un homme, da cantora americana Eartha Kitt, vale uma conferida. Ela estabelece um diálogo perfeito com o que foi dito até agora. Além da melodia elegante (bem ao estilo tradicional da chanson française), a letra é deliciosamente engraçada e repleta de trocadilhos. Check it out!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

9 razões para um coração solitário


A iminência do Dia dos Namorados não me assusta, mas incomoda. Apesar de saber que se trata de uma data puramente comercial, não consigo ficar indiferente a ela. Estar sozinho dói. Me sinto levemente deprimido, envolto na mais pura melancolia. Uma solidão que nem a companhia dos amigos é capaz de aplacar. Um vazio profundo que, ironicamente, me acompanha e conforta. Esse dito alívio, porém, ocorre mais em função da comodidade de não agir do que pelo real alento que a escuridão me traz.

De qualquer forma, é 12 de junho. Preciso me enfrentar. E eis que é chegado o momento de ponderar sobre os motivos que, afinal, me mantém preso às garras da minha própria solteirice:

1) Espero demais da outra pessoa. Tento encontrar um molde preconcebido e facilmente me frustro por não ser capaz de detectá-lo em meio à multidão. Embora eu saiba que perfeição não existe, que as pessoas são diferentes umas das outras e blá, blá, blá, não abro mão da satisfação completa dos meus sonhos e desejos. Não é o desespero que me fará agarrar qualquer coisa que me vier pela frente. Estabeleço exigências como todo mundo, até porque as pessoas esperam — e exigem — demais de mim. E isso nada mais é do que uma contrarresposta. Então me sinto menos culpado.

2) Sou muito temperamental. Eu me vejo como uma pessoa muito complicada. Um emaranhado de definições e imprecisões. Chato e insistente. Doce e ao mesmo tempo azedo. Receptivo e fechado, apesar do paradoxo. Minha mãe costuma dizer que eu corto as pessoas como se fossem inço. Discordo. Diria que procuro evitá-las, isso sim. Deixo de responder recados, bloqueio-as no MSN, torno a falar com elas, desapareço por uns tempos e depois volto à superfície. Minha disposição — isto é, o ânimo ou a falta dele — varia conforme meu humor. Mudo constantemente de ideia, me deixo deprimir. Subo aos céus e despenco direto para o inferno (geralmente com uma escala no planeta Terra).

3) Tenho hábitos de solteirona. Namorar exige desprendimento, atenção, troca de elogios e lembrancinhas, disposição para discutir e depois fazer as pazes... Dizem que não há nada melhor do que ter alguém ao lado, enrolado nos cobertores num dia de chuva, enquanto se assiste a um filme. Que coisa mais cafona! (Confesso que adoraria fazê-lo se estivesse comprometido com alguém.) Mas acho que comigo não daria certo. Detesto interrupções durante a sessão. Comentários, pausas, reclamações. Interrupções, mesmo, só se forem minhas: gosto de parar o filme, tomar nota do vocabulário novo, transcrever passagens, retroceder e avançar. Egoísmo justificado. É isso que dá passar meses — e anos! — solteiro. A gente cria hábitos bizarros, o que pode ser incômodo quando voltarmos a nos relacionar com alguém.

4) Não abro mão da minha individualidade. Você corre a semana inteira e então chega o final de semana. Beleza! Salvo aqueles que possuem a dádiva de não trabalhar aos sábados, só lhe resta o domingo para ficar de pernas pro ar — ou então terminar aquele bendito trabalho de faculdade. Mas o que poderia ser o paraíso na Terra se torna o inferno no Céu. É a tal da “obrigação” de encontrar a pessoa amada: tomar aquele banho, perfumar-se todo, vestir a melhor roupa e ir ao encontro dela. Quanta função! No fundo, não gostaria de abrir mão do meu único momento a sós para cumprir esse dever do namoro. Há coisa melhor do que esticar os pés numa rede ou andar feito mendigo pela casa? Nada de beijinhos e carinhos e afagos e abraços. Só você e mais ninguém. (Desconfio de que esse item esteja intimamente ligado ao anterior. E isso não é mera coincidência.)

5) Sinto ciúmes. Geralmente me controlo. Confio no meu taco, dou uma de gostoso e faço carão de “tô-nem-aí”. Mas não adianta. Ele insiste em me invadir, corroendo minhas entranhas com seu veneno, e me faz sentir espasmos no estômago. Não, não. Não tenho culhão para aguentar o ciúme. Aquele ex-namorado? Aquele contato d’Orkut? O colega garanhão do trabalho? O galã da faculdade? Exijo distância! Errado? Totalmente. A atitude mais acertada e madura seria encará-los numa boa. Quem sabe até conviver com eles, no máximo que nos permite o nosso cinismo civilizado. Mas quem disse que esse sentimento é racional? Sem contar o ciúme que tenho das minhas coisas. Não divido nada. Escova de dente, livro, computador, roupa. Nadinha.

6) Sou “intenso demais”. Você entendeu? Pois é, nem eu. Mas é esta a principal explicação deles para justificar o rompimento. Talvez estejam certos. Costumo me entregar de corpo e alma. Me revelo nu desde o início — o que não significa, é claro, que eu vá para a cama no primeiro encontro. “Nu”, aqui, só no sentido figurado. Me mostro da maneira mais natural e honesta possível. Abro meus sentimentos, expresso o que penso e sinto, descubro o manto que me envolve e protege. Evito tergiversações, rodeios, joguinhos de conquista. Vou direto ao que interessa. I’m straightforward. Além do mais, procuro degustar cada momento com o máximo de intensidade. Certa vez, disse que gostaria de amar em grandes goles. “Quero amor que afoga, quero amor em grandes golfadas”, escrevi. Exagero talvez? Pode até ser. Mas obviamente não forço a barra. Ele não procura isso, não se sente à vontade comigo? A porta está aberta. Não sou viúva-negra.

7) Demonstro inteligência. E isso intimida as pessoas. O cara conversa com você, percebe o tom e o conteúdo da sua conversa e foge. Desaparece. Torna-se um grão de ervilha num campo de soja. Talvez eu funcione ao revés. Para mim, inteligência é uma baita qualidade. É, aliás, um dos critérios que levo em consideração na hora da escolha de um pretendente. Gosto de me sentir intelectualmente desafiado. No entanto, o preenchimento desse quesito não parece ser condição sine qua non para muita gente. Elas buscam a cereja do bolo, o abdômen bem trabalhado, o tanque de lavar roupa, o rostinho apolíneo. Divagações acerca da efemeridade da vida? Soluções para o aquecimento global? Que nada. “Eu só penso em beijar.”

8) Sou mão-de-vaca. Você dá um duro danado, acorda cedo num sábado de manhã, trabalha um mês inteiro e recebe o merecido (e sempre insuficiente) salário. Então chegam as datas comemorativas e, junto com elas, a obrigação presentear. Sair para jantar. Pegar um cineminha e dar uma de cavalheiro. Ora bolas! Gastar, gastar, gastar. A vida de solteiro ensina a economizar. Se for para comprar um novo par de sapatos — ou uma camisa nova —, tudo bem. Desde que seja para mim.

9) Moro na cidade errada. Definitivamente a geografia não me favorece. Cidade pequena não oferece muitas opções de entretenimento e, consequentemente, a gama de partidos interessantes — e disponíveis, frise-se — diminui.

Sim, eu sou uma pessoa solitária. E solteira. Por quanto tempo permanecerei nesse estado? Só Deus sabe. Enquanto isso, convido São Valentim para um café e ouço a prece de Clarice Lispector:

“Meu Deus, me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. (...) Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.”

Feliz Dia dos Namorados!

terça-feira, 2 de junho de 2009

Silencio, no hay banda!


Eu lutei para sair da cama. Não queria deixar meu ninho quente e envolvente, que parecia engolfar minha alma. Mas levantei. Eram 7h15min e o sol lá fora já dava tímidos sinais de vida. Aqui dentro, tudo escuro. Meu corpo estava lânguido, minha cabeça girava num torvelinho desajustado, repleto de pensamentos negativos. Nada parecia fazer sentido; irritava-me com as pessoas e sua felicidade aparente. Desejava não ser visto. Preferia ser ignorado e esquecido. Alimentava a sensação de ocupar um espaço desnecessário.

Ao me olhar no espelho naquela manhã, tive vontade de chorar. Não possuía forças para tornar meu rosto mais apreciável e menos disforme. Me cansava. Entrar debaixo do chuveiro e lavar cada pedaço meu exigia forças descomunais de mim. Me repulsava sentir a água rolando, insistente. Queria deitar, apenas deitar, e jamais acordar. Mas nem mesmo no universo onírico encontrava um seguro refúgio: meus sonhos eram demasiado densos e difusos.

No fundo, nada me despertava uma ânsia de viver. A simples ideia de me arrumar para o trabalho, por exemplo, tomava todas as minhas energias. Não suportava mais sorrir para os alunos, não sentia mais prazer em dar aula. Detestava ter de ir à faculdade todas as noites, odiava ter de encontrar aquela gente falsamente realizada. Além disso, angustiava-me o fato de estar preso a uma vida regrada demais, rotineira demais, previsível demais. Desejava não ser o exemplo. Não pretendia ser requisitado, não queria ser impelido a mentir que a vida vai bem, obrigado!, não queria mais. No fim das contas, acordar e viver diariamente me exigia tanto que, ao voltar para casa, me sentia imprestável. Tinha preguiça de falar, de articular sons pela boca; preferia calar e sofrer em silêncio.

Não aguentava mais ser alguém que eu odiava. Queria sangrar, apenas sangrar.

 

Hoje? Não mais.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

La voix de la France


Quem nunca ouviu aquela canção de Jacques Brel que ganhou versões em inglês, alemão, espanhol e até holandês? Lançada em 1959 pela Warner-Chappell, Ne me quitte pas foi gravada e regravada centenas de vezes por diversos cantores, estrangeiros e nacionais, como Nina Simone e Maysa Monjardim. Tocou em novelas e minisséries, como Presença de Anita, exibida pela TV Globo, e embalou corações apaixonados e partidos. Segundo Brel, a canção não fala do amor, mas sobre a covardia dos homens. Ela foi escrita em decorrer da separação do cantor e de Suzanne Gabriello.

Na mesma sintonia musical está Charles Aznavour. Célebre por seu timbre de voz e seu carisma, o cantor compôs cerca de 850 canções e já vendeu mais de 100 milhões de discos. Fez também shows em dezenas de países, incluindo o Brasil. Em 2008, esteve em Porto Alegre, em uma turnê de despedida. Frequentemente descrito como o “Frank Sinatra da França”, Aznavour canta principalmente o amor. É o que ouvimos em Tous les visages de l’amour, lançada em 1974.

Quem está por trás do sucesso de Charles Aznavour, porém, é a notável cantora Édith Piaf. Depois de ouvi-lo cantar, Piaf levou o jovem Aznavour em sua turnê pelos Estados Unidos, no ano de 1951. Os dois se tornaram muito próximos e chegaram a ter um breve romance. Em sua música, Piaf expressava claramente sua trágica história de vida. Abandonada pela mãe ainda pequena, foi criada pela avó, que trabalhava em um cabaré. Aos 19 anos, Piaf perdeu sua única filha. Aos 46, com a saúde abalada pelos excessos e pelo vício em morfina, a voz de Édith Piaf calou-se. Mas ficou eternizada no mundo inteiro. É o que prova a canção Non, je ne regrette rien, composta por Charles Dumont e interpretada pela diva.

Mas não é só de paixões, sofrimentos e desilusões amorosas que a chanson française trata. Yelle, a mais nova sensação da música eletrônica, é a prova disso. Foi com o tom debochado do refrão de Je veux te voir que a jovem de 26 anos conquistou seus primeiros fãs — tudo através do MySpace. A cantora alcançou definitivamente as paradas de sucesso quando apresentou o hit À cause des garçons, em 2008. A música logo se tornou hino dos adeptos da Tecktonik, uma dança criada por jovens parisienses. Mas não se engane: o single é, na realidade, a regravação de uma canção homônima do À caus’ des garçons, um obscuro duo oitentista composto por Laurence Heller e Hélène Bérard. Com estilo irreverente e colorido — mesclado a uma voz aguda e nervosa —, Yelle é referência para a garotada atenta às ultimas novidades do electropop.

E quem disse que francês não gosta de rock? O grupo Noir Désir está há 24 anos na estrada para mostrar que a França não se resume a Piaf e Aznavour. É o conjunto de rock mais popular da França nos últimos anos. Os quatro rapazes — Bertrand Cantat, Serge Teyssot-Gay, Denis Barthe e Jean-Paul Roy — já lançaram 12 álbuns. Noir Désir atraiu primeiro as atenções do público com o single Aux sombres héros de l’amer, que se tornou sucesso nas rádios francesas. A canção é uma homenagem aos “sombrios heróis do mar”, que “atravessam os oceanos da vida”. Em outras palavras, a letra versa sobre o vazio existencial e a solidão em alto mar.

Apesar de ter nascido em Turim, na Itália, Carla Bruni é outra grande referência para a cena musical francesa. Depois de uma carreira como modelo, trocou as passarelas pelo canto. Lançou três discos. O mais recente deles, Comme si de rien n’était (Como se nada tivesse acontecido), é uma clara ironia em relação à comoção internacional que seu casamento gerou. Carla é casada com ninguém menos do que o presidente da França, Nicolas Sarkozy. Aqui no Brasil ela ficou conhecida depois de ter uma música — Quelqu’un m’a dit — incluída na trilha sonora da novela Belíssima, exibida pela TV Globo em 2006. A empresa farmacêutica Pfizer também não resistiu aos encantos da belle. Em 2007, escolheu L’amour como música tema de um comercial.

Assim como Carla Bruni, mas sem sua superexposição, a cantora Camille é uma voz em evidência na cena musical francesa. Ela é mais ousada e experimental do que a da primeira-dama, até demais para ouvidos acostumados ao pop tradicional. A cantora faz parte de uma nova geração de músicos, chamada pela crítica especializada de nouvelle scène française. Dona de apresentações performáticas e interativas, Camille acredita que a voz não é o limite para a música. Nas suas canções, ela extrai sons percussivos de seu próprio corpo. É o que se percebe em Ta douleur, Assise e Au Port, recheadas de grande lirismo cômico em suas letras.

Camille, Yelle e Carla Bruni. Serão elas as novas Édith Piafs da era da internet e da música por download? De todos os cantores clássicos apresentados nesta reportagem, apenas Charles Aznavour ainda está vivo. Talvez ele seja o último de sua geração. Mas isto não significa que ele perderá seu valor. A música francesa vem se renovando, sim, mas jamais deixará de prestar a devida homenagem àqueles que levaram a língua e a cultura da França pela frequência sonora das rádios, no mundo inteiro.

sábado, 25 de abril de 2009

O inesperado encontro

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Estou sem palavras. Tanto é que nem ao menos sei como começar este texto. Pois acabo de voltar do restaurante onde jantei com ninguém menos do que Mauricio de Sousa, o criador da Turma da Mônica. É até mesmo engraçado escrever o nome dele aqui. Nunca, em toda a minha vida, pensei que estaria jantando com o autor das histórias que tanto me fascinaram na infância. Os gibis eram meus companheiros. Guardo-os todos até hoje. Tomei gosto pela leitura graças a eles. Foram os quadrinhos que me abriram as portas para os livros, mais densos e intricados. Posso afirmar, sem sombra de dúvida, que boa parte da minha formação intelectual e moral veio da Turma. Sem ela, talvez, eu não teria criado o hábito de ler. De maneira que não veria graça nenhuma em escrever. E, por consequência, não teria escolhido o curso de Jornalismo.

Antes do jantar (o que não constava dos meus planos), Mauricio me recebeu carinhosamente no hotel onde estava hospedado, em Sapiranga, para uma breve entrevista. Ele revelou o segredo do sucesso da Turminha e falou sobre as novas experimentações com a Turma Jovem. Meu fascínio por estar diante de um dos cartunistas mais famosos do Brasil me fez perder a noção do tempo. Felizmente meu nervosismo inicial foi cedendo espaço a uma tranquilidade que fez da entrevista uma conversa informal entre dois amigos.

O pai da Mônica, do Cebolinha e de toda a Patota (como era conhecida a Turma nos anos 70) é uma pessoa extremamente cordial. Fala de mansinho, não perde o foco e surpreende com as respostas. Ao contrário do que muitos devem pensar, Mauricio é acessível. Tem notoriedade, mas não deixa de sorrir e atender a cada um de seus fãs — da criançada até os quarentões saudosistas.

Confesso que descolei o encontro com Mauricio por pura coincidência cósmica. Havia passado a semana inteira em Novo Hamburgo, de maneira que estava por fora da programação da XVII Feira do Livro de Sapiranga. Quando cheguei à cidade pela manhã de sexta-feira (24), recebi o panfleto que anunciava um bate-papo com o cartunista, seguido de uma sessão de autógrafos. Pimba! Era disso que eu precisava. Um evento e a oportunidade ideal para entrevistar uma sumidade. Se ao menos eu tivesse tido tempo para me preparar...

Fui correndo até o Parque do Imigrante, que sedia a Feira até o fim da tarde de hoje. Não seria fácil. Centenas de crianças e adultos amontoavam-se para ouvir Mauricio de Sousa falar. Eram 14h35min. Havia muitos obstáculos a superar. Além disso, eu teria de encontrar a assessoria do cartunista para chegar até ele. “A coletiva foi hoje de manhã”, disse-me uma das organizadoras do evento. “Eu sei”, menti. “Mas gostaria de marcar uma entrevista exclusiva para a Rádio Unisinos.” Meu professor Sérgio Endler que me perdoe, mas seria difícil convencer a cara feia da mulher se eu dissesse que estava cumprindo uma pauta para a disciplina de Radiojornalismo. Dizer que era estudante do curso não iria me ajudar. Mais uma vez, o truque. O mesmo que funcionou para a reportagem anterior. Só que, dessa vez, eu estava lá apenas para conseguir uma sonora para ilustrar meu boletim radiofônico. Não precisaria mais do que 5 minutos de áudio.

Consegui entrar na sala de autógrafos. Para minha surpresa, fui entrevistado pelo Jornal NH, que fazia a cobertura da Feira do Livro. Flashes aqui, sorrisinhos ali, tumulto, um entra-e-sai de pessoas. O cartunista autografou alguns raros e antigos exemplares da Turma da Mônica que eu trouxera. (Confesso que premeditei a cena antes de sair de casa.) Minha entrevista teria de esperar, a fila de autógrafos era longa. Mas tudo bem: já estava com o telefone do assessor de Mauricio em mãos. Bastava ligar mais tarde e, com sorte, encontrar o homem disponível.

“De quanto tempo você precisa?”, perguntou-me o assessor, quando finalmente falamos ao telefone. “Não mais do que 10 ou 15 minutos”, prometi. Eis que às 20h30min esperava Mauricio na recepção do Hotel das Rosas, conforme combinado.

A promessa não foi cumprida — não por falta de palavra do repórter, mas porque o entrevistado soltou o verbo (para a alegria de todos nós). O que estava programado para durar pouco tempo acabou se estendendo por mais de três deliciosas horas, mais da metade delas passadas dentro de uma pizzaria, a convite do próprio Mauricio. Durante o jantar, o cartunista revelou seus novos projetos, além de ter recordado as memórias da infância e do pai, Antônio. (Não tenho dúvidas, agora, de que a comida é um grande estímulo à conversa.)

O essencial vocês já sabem. E saberão com detalhes quando o boletim e a reportagem ficarem prontos. Também prometo transcrever, na íntegra, a entrevista para o deleite dos fãs da Turma da Mônica. As revelações de Mauricio vão encantar e surpreender os leitores!

***

É... Quem diria. Não é sempre que pessoas famosas resolvem aparecer em nossa cidade. E com muito menos frequência elas nos convidam para jantar. Mauricio de Sousa é uma delas. Já alimentava grande admiração por ele e por suas histórias quando eu ainda era um garotinho. Hoje, tendo-o conhecido pessoalmente, essa admiração só aumenta. Afinal, ele criou um universo que vem encantando gerações há mais de 50 anos. Uma proeza e tanto. Esse é Mauricio de Sousa. O mesmo cara que estava sentado ao meu lado na mesa do restaurante.